Deixemo-nos de palhaçadas (oh porquê???) e vamos mas é relatar a corrida nocturna algures no meio do mato envolvente a Óbidos.
Os amigos João e Mafalda vieram conosco até Óbidos aproveitando para ir também à Feira Medieval e claro para nos apoiarem. Obrigada! É preciso muita paciência para estar até às 2 e tal da manhã à nossa espera :)
Por volta das 20h e tal fomos equipar-nos. Só o trabalhão! E como raio é que se põe esta coisa na cabeça?
Enquanto a nossa partida (26 km) era só às 22h, os grandes atletas que foram aos 50 km partiram 1h antes e aproveitámos para assistir e dar uma força a estes atletas, aplaudindo-os enquanto passavam. Depois dirigi-mo-nos para a nossa zona de partida onde nos encontrámos com a Rute e assim completámos os 3 elementos dos 4 ao km participantes desta prova.
O inicio tinha algum alcatrão e eu queria era meter-me mato adentro para testar bem a minha luzinha. Pronto, o nome correcto é frontal. Eu acho mais piada dizer luzinha! E assim, ainda com o pelotão muito compacto, enveredámos mato adentro. Ao principio ainda ia a testar para onde deveria apontar a minha luz e a resmungar internamente por ter de correr com aquela coisa na cabeça mas não tardou muito, tal como a mochila, a fazer parte de mim. Ao inicio ainda íamos os três mas a Rute cedo seguiu e ficámos os dois.
Confesso que a memória já me atraiçoa e já não me recordo de todo o percurso. Mas no geral lembro-me de muita coisa e vocês não se safam de uma longa leitura ;) (não quero cá batoteiros, a saltarem partes).
Lembro-me que os primeiros 5 km não foram nada de especial, algum alcatrão alternado com terra batida, algum sobe e desce e algumas zonas planas. Nas descidas eu ia a ajeitar o frontal pois os saltinhos faziam aquilo deslizar ligeiramente para baixo. Passámos dentro dumas povoações, numa delas fui surpreendida por alguém a gritar por mim. Não consegui ver quem era, mas agradeço o apoio :)
Lembro-me que logo nesses primeiros km's vimos duas ou três pessoas lesionadas! E até havia umas senhoras a avisarem-nos para termos cuidado pois vinha aí uma descida perigosa onde já se tinham lesionado dois. Wow! Até ficámos com medo. A descida era de facto algo inclinada e escorregadia mas com muito cuidadinho lá se fez.
Parámos pouco tempo no primeiro abastecimento pois este era só de líquidos e continuámos rumo a um grande engarrafamento. Pois é...íamos nós muito bem a correr com as nossas luzinhas pelo meio do mato quando damos de caras com um engarrafamento digno da 2ª Circular. Tudo por causa duma subida que nem era nada de extraordinário. Pára, arranca, pára, arranca. Foi assim que fizemos aquela subida e entre o km 5 e o 6 fizemos o km mais lento de toda a prova. Eu que estava cheia de pica e queria testar aquela subida ao ritmo Arga ou seja, ao ritmo mais rápido possível, tive que me conter e ficar ali parada no trânsito. Mas como todos os engarrafamentos, este chegou ao fim e podemos continuar a correr em zonas algo técnicas e onde tinhamos que ver bem onde colocávamos os pés pois o piso não era propriamente plano e tinha sempre umas raízes e uns troncos pelo meio. Aos poucos estava a começar a adorar correr à noite com uma luzinha na cabeça. "Isto é mesmo fixe!" pensava eu.
Recordo-me de algumas subidas, nenhuma por aí além mas o suficiente para nos dar algum gozo.
No briefing inicial já tinham avisado os atletas que este ano o percurso seria diferente, com menos estradões e mais sobe e desce. Assim sim! :)
Já não me recordo bem do percurso entre o primeiro e o segundo abastecimento. Sei que íamos bem e a ultrapassar algumas pessoas, principalmente em subidas ou zonas planas. Já sabem que nas descidas as coisas revertem-se ;)
Lembro-me que algures depois do segundo abastecimento e até ao terceiro foi quase sempre a correr junto à lagoa. Estava uma noite agradável, um pouco quente mas de vez em quando caíam uns chuviscos que refrescavam. Corremos, corremos, corremos, a maior parte do tempo em terra batida, numa ou noutra zona havia um pouco de areia, o suficiente para pensarmos o quão loucos/heróis são as pessoas que fazem a UMA, 43 km em areia! Vocês são doidos, desculpem lá! Mas admiro-vos muito :).
E corremos tanto nesta zona que já estávamos fartos de correr! Já desejávamos uma subida! E é nestas alturas que eu penso sempre, isto dos trilhos é um espectáculo e é duro para caramba mas correr continuamente...upa upa...
Quando já íamos a correr há uns km's junto à lagoa passámos por cima duma pontezinha de madeira e começámos a subir uma escadaria que nos levaria ao terceiro e último abastecimento. Chegados lá, comecei a varrer a mesa com os meus olhos e o que vi? Algo tão belo....algo que não via desde S.Mamede...SIM!!! ERA ELE!!!! Ai ca coisa mai boa! TOMATE COM SAL!
Completamente cega de amor fui direitinha a ele. As saudades eram muitas. Só depois me virei para as batatas fritas, bolachas e bananas. Foi um momento de reencontro muito emocionante, mas este não me soube tão bem como o de São Mamede. Em São Mamede estava calor, em São Mamede o tomate era diferente, era especial. Mas deu para matar saudades ;)
Depois disto seguimos caminho sozinhos. Apesar das luzes o mato ainda parecia mais escuro, pois naquele momento íamos sozinhos. Pouco depois estávamos a descer uma mini-arriba com a ajuda duma corda. São estas coisas que dão um toque aventureiro a estas provas. Passado o obstáculo continuámos caminho. Algumas subidas, algumas descidas, algumas zonas planas. Alguns obstáculos, essencialmente pequenos troncos, estávamos sempre a dar jeitos aos pés.
A certa altura aparece-nos uma poça grande de água enlameada que ficava num buraco talvez com 1 metro e pouco de altura. Estava lá um senhor a ajudar-nos a descer. Ora bem, todas as pessoas que desceram à minha frente conseguiram descer direitinhas aos braços do senhor e assim ficaram sequinhas dos joelhos para cima...Comigo....com Vitor e senhor prontos para me ajudarem...eu consegui a proeza de escorregar por ali abaixo e cair direitinha...dentro da água suja....
Toda molhada até à cintura....porquê eu??? Porquê?
Já íamos com 20 e poucos km's, já não faltava muito...onde estava o castelo? Por esta altura ainda mal sabíamos o que a organização nos tinha reservado para últimos km's....
Ufa, a conquista do castelo seria complicada!
Uns trilhos bem técnicos em curva e contra-curva, com montes de ramos, mais dois ou três sítios em que tinhamos que escalar com auxílio a corda. Esses últimos km's voltaram a ser lentos, o terreno tinha alguns obstáculos o que tornava difícil correr. Já avistávamos o castelo mas ele ainda parecia tão longe...
Finalmente estávamos a subir a encosta do castelo, mas este pessoal da organização de trails tem sempre um humor distorcido e fazem-nos andar ali aos esses, por vezes até descendo, e o castelo lá em cima.
Gritei bem alto "Caraças! Nós vamos conquistar o castelo!!!" Não estou a brincar! Era um grito de guerra. Podem-nos colocar os obstáculos que quiserem, o castelo era para conquistar! Mesmo que tivessemos que subir uma escadaria com cerca de 100 degraus para o conquistar! E assim fizemos! E era já ali.
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Epá, é já aqui! E somos logo fotografados pela Mafalda. |
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Isa, conseguimos! Conquistámos o castelo! |
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Epá, nem vos conto...este castelo estava difícil de conquistar...ufa... |
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A manjar :) Ai que sopinha quentinha tão boa! |
E foi mais uma aventura deste casal. Mais uma na excelente companhia do Vitor. Foram quase 27 km, já todos sabemos que nos trails acabamos sempre por ter uns metros ou até km's surpresa.
Adorei esta prova! Gostei muito mais do que estava à espera. Estava com receio pela luz, pela hora mas tudo correu muito melhor do que esperava. E no dia seguinte já comentávamos que devíamos era ter ido aos 50 km...Malucos...eu sei... ;)