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Eu e o Vitor a tirarmos uma selfie antes da partida.
Foto da organização. |
Vamos lá então ao relato de mais uma aventura a dois.
No domingo deslocámo-nos a São Mamede (curioso...), localidade perto de Fátima, para participar nos Trilhos do Pastor. Fomos recebidos de forma calorosa e logo ficámos surpreendidos e sorridentes com a recordação oferecida, uma das ovelhas do rebanho do famoso pastor ;)
Estava bastante frio o que me levantou algumas dúvidas quanto à vestimenta. Eu ia de calções mas tinha levado umas calças pelo sim pelo não. E agora o que fazer? Levava antes as calças? Estava mesmo cheia de dúvidas e o Vitor lá teve a ideia de eu levar as calças na mochila. Assim se a meio da prova tivesse muito frio podia sempre vesti-las. E assim lá as guardei, juntamente com um boné que poderia ser necessário caso aparecesse o sol. Sol? Claro Isa...claro...
Tirámos então a selfie:
Na partida reparámos em dois atletas de 4 patas. Um labrador e um rafeiro. Qualquer um deles chegou à nossa frente...Grandes atletas!
Às 9h estávamos a iniciar a nossa aventura.
Primeiros 2/3 km em plano mas mesmo assim consegui achar maneira de por duas ou três vezes tropeçar nos vários ramos no chão. Felizmente não resultou em queda.
Depressa chegámos às Grutas da Moeda. Se a prova tivesse acabado à saída das grutas eu já me daria por feliz pois a passagem dentro destas bonitas grutas já valia a pena. Espectacular! Lindo! Único! Passar dentro de umas grutas em plena prova é uma experiência que vale muito a pena. Adorámos!
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| Em plena gruta. |
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| Os atletas a subirem umas escadas dentro das grutas. |
Depois de sairmos das grutas, seguimos durante algum tempo a correr. O percurso era relativamente plano e fazia-se mais ou menos bem.
Mas claro que a parte plana não podia durar muito e acabámos por chegar à primeira subida digna desse nome. Muita pedra, muita rocha, alguns troncos de árvores para transpor. Muito bonito também. Vistas bonitas do cimo da serra, muito verde, uns moinhos.
Apesar de irmos a subir, íamos bem. Fizemos 10 km quase sem dar por isso. Mal sabíamos que as verdadeiras dificuldades viriam a partir dos 20 e poucos...
Começámos a descer e fomos dar a um sítio do mais pitoresco que há, a Pia do Urso. Tenho imensa pena de não termos tirado fotos mas estava a chover e queriamos evitar molhar os telemóveis. Assim só temos uma foto e nem se vê as casas de pedra da Pia do Urso. É uma pena. Na Pia do Urso andámos numa espécie de circuito pitoresco onde até vimos um urso! A sério!!! Não era é verdadeiro.... =P
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| A única foto tirada na Pia do Urso. |
Neste circuito que havia, o chão era em madeira e escorregava para caramba! Foi feito com muito cuidadinho.
Depois de sairmos da Pia do Urso, e se bem me lembro do percurso, houve mais uma zona boa para corrermos. Corremos uns 3 km talvez e confesso que já desejava uma subida só para podermos andar um bocadinho. E ela lá me fez a vontade e apareceu. Foi nesta altura que começámos a subir em direcção ao Parque de energia eólica. E foi mais ou menos a partir daqui que deixámos definitivamente para trás os atletas que vinham perto de nós e daqui para a frente seguiríamos sempre isolados. Mas assim é que é bom, sentir que estamos sozinhos no meio da serra.
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Aí vamos nós numa pequena mas muito inclinada subida
após termos passado debaixo dum pórtico natural formado
por uma árvore tombada. |
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| É só estilo a subir....ou não... |
Quando chegámos ao pé daqueles gigantes e ainda por cima com o vento que estava...metia muito respeito. Um barulho que mais parecia trovoada, para não falar que à velocidade a que as gigantescas pás rodavam eu só pensava que se uma cai em cima de nós cortava-nos logo em pedacinhos. Bora sair daqui!
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| Eu no meio dos gigantes. |
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Debaixo de um gigantão!
Impressionante! |
E começámos a descer, mais coisa menos coisa, sim porque era a descer mas volta e meia subiamos um bocadinho. No final da prova cheguei à conclusão que os senhores da organização tinham um sentido de humor interessante.
Já tinhamos passado os 20 km e abastecimentos nem vê-los. E até aqui tinham havido já 2 ou 3 mas eram só de água. Apesar de carregarmos conosco geis, barras, marmeladas e pistácios (houve alguém que se apaixonou por pistácios nesta prova) já nos apetecia umas bananas ou uns bolinhos.
Continuámos a descer e fomos dar a uma terra onde estava finalmente o abastecimento. Não havia bananas mas havia gomos de laranja, biscoitos e cavacas. Estávamos nós descontraídos a comer, pensando que ainda dava na boa para fazermos cerca de 4h30 ou pelo menos fariamos abaixo das 5h de certeza...quando o Vitor perguntou a um homem da organização se a prova tinha 28 ou 30 km. Pequeno sorriso matreiro e diz-nos que tem mais perto é de 31 km. Perguntamos se ao menos era corrível. Só nos 3 km finais, até lá ainda íamos subir um bocado e só no final é que era a descer. Ainda com um biscoito na mão virei-me para o Vitor e disse "Vamos".
Depois do que o senhor nos tinha dito, tinhamos que nos despachar se queriamos chegar antes das 5h. Oh inocentes, inocentes!
A partir daqui seria a subir por carreiros bem estreitos, só os perdoei quando vi o Buraco do Roto, uma espécie de buraco na rocha, passámos dentro do Buraco do Roto e continuámos sempre a subir. Na maior parte do tempo subi toda curvada tal era a inclinação.
E foi quando depois de ainda termos subido um bom bocado chegámos à descida mais perigosa que eu alguma vez fiz na minha vida. E foi aqui, e após percebermos que depois de descermos ainda íamos voltar a subir, que deixámos de querer saber das sub-5h. Só em sonhos...
A descida...vou tentar descrever mas só lá estando.
Imaginem uma escadaria natural formada pelas rochas, imaginem que essa escadaria é relativamente estreita. Depois imaginem que do vosso lado direito está um precipício. E a única coisa que vos separa desse precipício é uma corda. Como se isto já não bastasse juntem-lhe uma boa dose de chuva e vento. A escadaria bem escorregadia. ASSUSTADOR!
Nunca tive tanto respeito durante uma prova como tive naquele momento. E por respeito quero na realidade dizer medo, muito medinho.
O pior de tudo foi que não havia ninguém ali, ninguém da organização estava presente. Penso que era o mínimo que se pedia. Um membro da organização presente a certificar-se que tudo corria bem com os atletas.
A melhor opção foi descer aquilo de costas, sem largar a corda um segundo e do outro lado ia-me agarrando também aos arbustos. Just in case. Na altura pareceu-me que aquilo nunca mais terminava. Quando acabou foi um alívio. A coisa fez-se mas só mesmo com muito cuidado. Ufa, metemo-nos em cada uma!
Depois desta descida, havia uma subida, mas nada de extraordinário. Nem demos por ela, íamos demasiado ocupados a reclamar da descida. Quando voltámos a olhar para lá vinham uns atletas a descê-la com mil cuidados. Graças a todos os santinhos que já nos livrámos daquilo! Só para terem uma noção estes dois km's foram feitos em 18 e 25 minutos respectivamente....Acho que isso diz tudo...
Depois de subirmos estávamos novamente junto do parque eólico e depois começámos a descer. Chovia e fazia vento. Estava a ser uma grande prova de resistência. Íamos com muita atenção aos sinais do corpo e sempre a mexer as mãos pois estávamos com algum receio de hipotermia. O corpo ia encharcado e as mãos começavam a ficar frias. Enquanto corria ia abrindo e fechando as mãos para o sangue circular.
Descíamos, por vezes havia umas zonas mais planas, de vez em quando ligeiras subidas mas no geral estávamos já a descer para a meta. Iamos bem mas estávamos desejosos de um banho quente!
31,200 km e 5h34 depois chegámos finalmente à meta. Chegámos bem, felizes. Foi uma prova que nos pôs bem à prova e que nos deixou mais confiantes quanto à nossa resistência e mais optimistas quanto a futuras provas.
No final o banho quente foi a cereja no topo do bolo. De referir uma coisa que nos aconteceu a ambos e que mostra bem o que foram aqueles últimos km's à chuva e ao frio. Quando estava a tomar banho e tentei espremer os frascos do shampõ e do gel de duche as mãos não conseguiam fazer esse simples acto. Estavam ainda geladas. Mete muito respeito. Nem sequer se pode dizer que estivesse muito frio, já apanhámos mais frio noutras provas mas a chuva gelada e o vento, as duas coisas conjugadas deram este resultado.
O balanço desta prova é muito positivo. Percurso do mais variado que há, passagens em locais belíssimos e bem originais como as grutas, a Pia do Urso ou o Buraco do Roto. Percurso muito bem sinalizado (apesar de algumas pessoas mais distraídas quase terem seguido pelo caminho errado por duas ou três vezes ;) ...), abastecimentos suficientes embora na minha opinião o abastecimento dos sólidos já tenha vindo um pouco tarde (só apareceu por volta dos 22, 23 km), duches quentes no final e pessoas simpáticas na organização.
O único ponto negativo que tenho a referir é mesmo a falta de alguém da organização naquela descida perigosa.
E pronto, adorei esta prova!