No domingo fui feliz em Montejunto.
Estava a precisar disto. De me afastar de Lisboa, de me distrair correndo por montes e vales e em boa companhia.
Às 6h30 estava a sair de Lisboa em direcção à Serra de Montejunto. O meu companheiro nesta viagem foi o Vitor. Num instante chegámos a Vilar, a localidade que acolheu a partida e chegada desta prova. O frio que se fazia sentir...gostava de descrevê-lo mas há coisas que só sentindo. Estava mesmo muito frio. Vilar situa-se num vale e até que o sol saísse de trás da serra ainda sofremos um bocadinho com o frio.
Esta cabeça de vento levou gorro, levou luvas mas esqueceu-se de levar corta-vento.Felizmente que o Vitor tinha um a mais. E mal eu sabia o jeito que aquele corta-vento me viria a dar...Mais uma vez muito obrigada Vitor. Ainda bem que insististe para que eu o levasse :)
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Aquela ali de gorro, luvas e corta-vento sou eu...
Ainda dá para reconhecer pois por baixo está a camisola amarela ;)
Foto by Vitor |
Depois de algumas fotos tiradas no local da partida que atrasou um pouco, chegou finalmente a hora de nos pormos a correr dali para fora.
Saímos então de Vilar que era maior do que eu estava à espera e passado um bocado estávamos a correr aqui:
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| Foto by Vitor |
Não tardaria muito a começarmos a subir. Havia de vez em quando umas ligeiras descidas para corrermos um bocadinho mas seguiam-se subidas.
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| A subir em direcção a uns moinhos bem pitorescos. |
A seguir vinha o primeiro abastecimento. Aproveitámos para beber algum isotónico e seguimos caminho.
O vento que se fazia sentir era bem forte, mas mal sabíamos nós que mais à frente íamos apanhar vento ainda mais forte! Minhas ricas orelhas felizmente protegidas por um gorro. As luvas cedo foram para dentro da mochila e daí não mais saíram.
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Não...aqui não estava vento nenhum...
Foto by Vitor |
Já perceberam que passámos o tempo a tirar fotografias. Mas é impossível não o fazer, as paisagens são belíssimas e a vista lá de cima é espectacular.
Corremos nas zonas planas e nas descidas sempre que o piso o permitia. Nas subidas....dependia...se fossem ligeiras até podíamos tentar correr um bocadinho. Agora naquelas subidas íngremes como o caraças, que mais parecem um carreiro de cabras...Só se for para me matar.
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| Uma simpática atleta ofereceu-se para nos tirar uma foto. |
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Esta era a vista lá de cima.
Foto by Vitor. |
Daqui para a frente começámos uma subida de caminho de cabras que só visto. Single track, ninguém conseguia ultrapassar ninguém e mesmo que conseguisse, what's the point? Era íngreme até dizer chega, o piso era irregular, tinhamos que ir com os olhos postos no chão para vermos bem onde colocávamos os pés. Se queriamos ver a bela vista tinhamos de parar um pouco.
Acho que foi nesta altura que a montanha fazia uma curva e de repente levámos com o vento com toda a força. Bendito gorro, bendito corta-vento, bendito Vitor. Um vento gelado! Nunca tinha apanhado tanto frio nem tanto vento numa prova. Mas são estas experiências que enriquecem e que nunca esqueceremos.
Continuámos a subir num caminho já ligeiramente mais largo e com umas antenas em vista.
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O Vitor.
Não se percebe mas vamos a subir e não é pouco. |
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Eu.
Eu não disse que era a subir?
E reparem bem no piso... |
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As tais antenas que estão no topo da serra. Iriamos até lá,
continuando a subir, depois descendo ligeiramente
e depois novamente a subir. |
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| A vista lá de cima...E nem sequer estávamos ainda no ponto mais alto. |
Quando chegámos aqui conseguiamos ver o mar e como a costa portuguesa nunca mais acaba. Vi uma grande terra junto à costa que tenho quase a certeza ser Peniche pois ao fundo via-se uma ilha que só poderiam ser as Berlengas. Lindo, lindo, lindo! Nesta altura comentei com o Vitor que se uma pessoa estivesse a pensar em emigrar (sei lá...eu por exemplo...) chegava ali e desistia da ideia. Quem é que pode sair dum país tão belo? Não quero que se assustem com isto. Não vou emigrar. Em principio. Mas a ideia tem-me vindo à cabeça nas últimas semanas com mais frequência do que devia. Tenho coisas que me "prendem" aqui em Portugal e uma delas é a corrida. Eu sei que posso correr em qualquer sítio, mas custa-me deixar estas corridas e este convívio. Há muita coisa que me trava, mas ao mesmo tempo precisava de alguma coisa mesmo forte que me travasse mesmo. Naquele momento pensei "UAU! Não quero sair daqui!". Até comentei com o Vitor que montava ali uma tenda e ficava ali a viver. O principal senão era o frio...A montanha faz-nos viver sensações muito fortes. Sensações que queremos continuar a sentir por muito tempo. Agora que já estou de volta à cidade apetecia-me ter ficado na montanha, apetecia-me ter ficado por lá a correr e a caminhar durante um dia inteiro. Quando estivesse cansada parava e sentava-me numa rocha a observar a paisagem.
Mas chega de desvarios. Voltando (infelizmente) à realidade. Continuemos com o relato.
Depois daquela vista impressionante sobre a costa portuguesa, começámos a descer. Aqui não havia um trilho definido, haviam as marcas da organização e só por isso soubemos qual o caminho porque basicamente corremos no meio de ervas. Não descemos por muito tempo pois ainda teriamos de subir em direcção às antenas, até ao topo. E assim o fizemos. Lá chegados começámos novamente a descer, agora já durante mais tempo e com uma pequena incursão no alcatrão. Passado um pouco estávamos no segundo abastecimento onde pelas conversas percebemos que tinham havido alguns erros da organização e algumas queixas de atletas. Bebemos novamente isotónico, a única banana que sobrava ficou para mim. Acabei por oferecer metade ao Vitor e um bocado a outro atleta que vinha a queixar-se de caimbras.
Depois deste abastecimento metemos outra vez pelo meio dos arbustos e continuámos a descer. Nalgumas zonas tinhamos de ter algum cuidado pois o piso era muito irregular mas sempre que o piso melhorava toca de correr.
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O único km a merecer um pórtico.
Foto by Vitor. |
Ainda haveriam mais umas subidas mas já nada de especial. Voltámos a passar ao pé dos moinhos e continuámos a descer, a certa altura já em alcatrão. Entrámos numa povoação, acho que ainda não era Vilar mas não tenho a certeza. Um rapaz estava com um garrafão a perguntar se queriamos água mas ambos ainda tinhamos água mais que suficiente. E mais à frente marcado com tinta da organização no meio da estrada estava uma seta a apontar para o lado esquerdo e dizia "xixi". Aquilo foi tudo tão repentino e estávamos tão ocupados a rir-nos da seta no chão a dizer xixi que nos esquecemos completamente de tirar uma foto.
Se inicialmente estávamos a apontar para as 4h ou mais de prova. Acabámos por fazer 3h45, apenas porque conseguimos recuperar algum tempo na descida porque a maioria das subidas só a passo. Nestas coisas já se sabe que o tempo é completamente secundário, o que conta é a experiência vivida, a companhia, as paisagens, o desafio.
No final ainda nos deram mais uma banana e uma garrafinha de tinto :) E era à escolha, podiamos escolher branco ou tinto. Simpático.
Também tivemos direito a t-shirt que nos foi dada logo de inicio e não faltaram abastecimentos. O percurso estava bem sinalizado, havendo ou marcas na estrada ou fitas nos arbutos. Nunca nos enganámos.
Não tenho nada de negativo a apontar à organização. A minha prova correu muito bem. Mas pelo que sei parece que não correu tão bem a outros e esta pode bem de ter sido a primeira e última edição do Trail de Montejunto. Espero bem que não o seja pois gostei bastante. E se houve erros a organização terá de facto de os corrigir numa eventual próxima edição. Esperemos que tudo se resolva.
Os meus ténis portaram-se super bem. Em boa hora os fui comprar pois nesta prova com ténis de estrada...provavelmente tinha-me espalhado ao comprido várias vezes.
Para terminar quero agradecer ao Vitor pela boleia mas sobretudo pela companhia. Sempre na conversa e a trocar experiências a coisa faz-se muito melhor. E obrigada pelo corta-vento salva-vidas :)